Racismo é o segundo crime mais denunciado na internet !!
Era para ser apenas mais uma foto de um casal feliz, entre as inúmeras
publicadas diariamente nas redes sociais. Era e deveria ser, não fosse o
casal formado por um jovem branco e uma parceira negra, e o Brasil um
país racista.
Não à toa, o crime de racismo na internet é o segundo com o maior
número de denúncias, perdendo apenas para a pornografia infantil.
O caso mais recente divulgado na mídia ocorreu na semana passada. Dóris
Martins, de 20 anos, postou uma foto com o namorado, Leandro de
Freitas, de 18 anos.
A demonstração de afeto se tornou alvo de agressões, com uma série de
comentários preconceituosos contra o casal, residente da cidade de
Muriaé, Minas Gerais.
"Eu acho que você roubou o branco para tirar a foto"; "onde comprou
essa escrava?"; "parece até que tão (sic) na senzala" foram alguns dos
comentários.
O caso ganhou repercussão nacional e, para evitar maiores constrangimentos, a jovem desativou a conta na rede social.
Antes, postou uma mensagem lamentando as manifestações racistas.
"Haverá racismo enquanto as pessoas não entenderem que por dentro somos
todos iguais", disse.
O casal, que está junto há um ano e oito meses, foi, na última
terça-feira, à Delegacia Regional de Muriaé para prestar queixa. A
Polícia Civil instaurou inquérito para apurar a denúncia.
Por telefone, Leandro de Freitas limitou-se a dizer que os dois estão
muito tristes com o episódio, mas que isso, em momento algum, abalou a
relação. "Nos gostamos. Isto é o que importa".
Estatística
Esse não foi o primeiro caso de crime de racismo na internet e,
infelizmente pelo histórico, não parece ser o último. Só em 2013, a ONG
Safernet Brasil, que controla a Central Nacional de Denúncias de Crimes
Cibernéticos, recebeu 78.690 denúncias anônimas de racismo.
Atualmente, esse tipo de crime é, inclusive, o segundo mais frequente,
perdendo com margem bem pequena apenas para os crimes de pornografia
infantil, que registrou 80.195 denúncias anônimas em 2013, segundo dados
da Safernet.
Entre 2006 e 2013, foram 383.372 denúncias de racismo, envolvendo
51.649 páginas distintas escritas em sete idiomas e hospedadas em 6.392
hosts diferentes.
"A situação torna-se ainda mais preocupante se considerarmos que, nos
primeiros quatro anos de levantamento, o crime de racismo era o quarto
com maior número de denúncias", diz o presidente da Safernet, Thiago
Tavares Nunes de Oliveira.
O crime de racismo ficava atrás dos crimes de homofobia, pornografia infantil e da apologia e incitação a crimes contra a vida.
O caso do músico baiano Adalmir Chabi não entrou para as estatísticas,
como ocorre com muitos. Ele sofreu preconceito, após publicar uma foto
antiga, quando ainda usava o cabelo no estilo black-power.
"Fui obrigado a ler comentários dizendo que eu parecia um bicho , tipo
macaco e leão, e que dava para esconder um monte de coisa no meu
cabelo. Lamentável", lembrou.
Situação semelhante ocorreu com a cabeleireira Elísia Santos, 30. Ela
participava de um grupo de uma grande marca de cosméticos e houve uma
discussão sobre alisamento de cabelo. A profissional fez questão de
abordar as consequências do alisamento e, em seguida, foi bombardeada
com comentários que, segundo ela, eram racistas.
"Sou negra, uso dread e cuido de cabelos afros há anos. Entre os
comentários, me disseram que eu só estava falando aquilo porque estava
acostumada a trabalhar com gente feia e que o cabelo liso era
esteticamente mais bonito, entre outros absurdos", contou Elísia.
Ainda segundo relato da cabeleireira, muitos integrantes do grupo
acharam engraçado. "O pior de tudo foi isso: ver que muitos riram da
situação, em vez de se indignarem. Denunciei o grupo na rede social e
saí. É muito triste ver o quanto as pessoas ainda são preconceituosas".
Mazelas
Para a professora Josiane Clímaco, mestranda em educação e coordenadora
do Fórum Nacional de Mulheres Negras - Bahia, episódios como esses só
reafirmam a existência do racismo, embora muitos insistam em negá-lo.
"Esse caso só prova que as mazelas da colonização ainda continuam
presentes na nossa sociedade, em pleno século XXI. É um absurdo que
precisa ser denunciado e combatido", opinou Josiane.
Para Valter da Mata, mestre em psicologia social e representante da
Comissão Nacional de Direitos Humanos do Conselho Federal de Psicologia,
situações desse tipo podem fazer com que as vítimas de racismo
carreguem traumas para o resto da vida.
"Dificilmente uma pessoa passa por uma situação dessas sem ter a
autoestima abalada, sobretudo quando se é muito jovem. Se a vítima não
tiver uma estrutura emocional e familiar muito boa, episódios assim
podem trazer prejuízos em diversas áreas", comentou o profissional.
De acordo com Valter da Mata, as referências e a maneira como a vítima constrói a própria identidade são fatores importantes.
"Dependendo da situação, a pessoa pode, muitas vezes de maneira
inconsciente, evitar se relacionar com pessoas de etnia diferente
temendo o preconceito social. Isso acaba interferindo nas escolhas
pessoais, o que pode acabar gerando frustração ao longo da vida",
avaliou.

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