O que é a independência do Banco Central? Ela é boa?
O Banco Central entrou no debate
eleitoral. Mais especificamente, a forma como ele será gerido. Na disputa pela
simpatia do mercado financeiro, Aécio e Marina se opõem à política econômica do
governo atual - a última defende total independência do órgão. O governo de
Dilma Rousseff, por sua vez, defende que a política econômica do País é uma
prerrogativa do Poder Executivo, e que o BC já tem autonomia operacional.
Em linhas gerais, o que está em disputa
é o conceito geral de como cuidar da economia e, de certa forma, dos rumos da
nação: de um lado estão os que defendem a intervenção mínima do governo. Para
estes, o mercado pode se autorregular, e um BC totalmente independente é parte
do pacote. Do outro lado estão os que defendem alguma intervenção do governo na
economia, de forma a garantir que o Poder Executivo eleito pela maioria da
população (e não o mercado) seja a voz mais forte na definição das prioridades
da economia nacional. O assunto pode soar arenoso ou parecer mera discussão
técnica. Mas não se engane: o regime do Banco Central pode influenciar
diretamente no dia a dia de sua família. Saiba como:
O que o Banco Central faz?
É responsável pelo sistema
financeiro de um país ou de um bloco de países, como no caso da União Europeia.
Emite a moeda e fixa a taxa de juros básica, que serve de parâmetro para todas
as demais taxas de juro do mercado, como a do seu cartão de crédito. Atua no
mercado de câmbio, sendo o principal responsável, em última instância, pela
cotação do dólar e do euro, por exemplo. O BC ainda coordena os depósitos
compulsórios, mecanismo que garante que o dinheiro de todas as contas e
investimentos do País "exista de verdade". Em alguns casos, o Banco
Central também empresta dinheiro a bancos em dificuldades, buscando evitar que
o país entre em crise.
Quem nomeia o presidente do
Banco Central?
No Brasil, o Poder Executivo
indica a diretoria. Ou seja, é o presidente da República quem indica o
presidente do BC. Também é responsabilidade do Executivo definir suas metas e
supervisionar sua execução. É assim que funciona no Brasil. Com as mudanças
propostas pela oposição, o presidente do Banco teria um mandato a ser
cumprido e não poderia ser demitido, a não ser em circunstâncias
extraordinárias, como a comprovação do seu envolvimento em atividades ilícitas.
O que está sendo proposto por
Dilma, Aécio e Marina?
O PT de Dilma Rousseff defende a
autonomia operacional do órgão, mas argumenta que a economia precisa ser
dirigida por aqueles que são eleitos; Aécio Neves (PSDB) defende mais
autonomia, mas diz ser mais importante a sinalização que o presidente dá em
relação a uma autonomia completa do que uma lei propriamente dita que garanta a
independência do BC.
Marina Silva (PSB) é que tem a
posição mais firme no sentido de deixar o mercado se autorregular. É a única
dos três candidatos à Presidência mais bem colocados nas pesquisas de intenção
de votos que defende uma independência garantida por lei. Eduardo Campos também
defendia maior autonomia do BC.
A posição da candidata difere da
que ela defendeu no pleito de 2010, quando disputou o Planalto pelo PV. À
época, Marina falava em uma autonomia operacional e não institucionalizada.
Quais seriam as vantagens da
independência do Banco Central?
Defensores de uma maior
independência do Banco Central, como Eduardo Giannetti da
Fonseca, conselheiro econômico de Marina Silva, observam que a
independência impede que o Executivo interfira nas decisões do BC. Seria uma
forma de manter a entidade mais preservada de pressões políticas e com
maior credibilidade. Essa combinação "acalmaria" o mercado e
contribuiria, em teoria, para diminuir as expectativas de inflação.
E quais seriam as
desvantagens?
Os críticos da independência
total do Banco Central argumentam que quem tem de definir a política econômica
do País, que tem forte impacto no dia a dia da população, é um governo eleito,
e não técnicos financeiros. Para a equipe econômica de Dilma, o governo
não pode abrir mão de sua autoridade monetária. Por fim, não há consenso entre
os economistas sobre a relação direta entre uma maior independência do BC
e menores índices de inflação.
Há algum projeto de lei
tramitando no Congresso sobre o tema?
Sim, há um projeto de lei que
prevê maior autonomia do BC, de autoria do senador Arthur Virgílio (PSDB-AM),
um substitutivo da proposta do senador Francisco Dornelles (PP-RJ). Pelo texto,
os diretores teriam seis anos de mandato. Além disso, caso haja demissão do
presidente ou dos diretores do BC pelo presidente da República, isso teria de
ser justificado e aprovado pelo Senado, assim como a nomeação. O texto,
aprovado pelo plenário do Senado, seguiu para discussão na Câmara e não tem
data para ser votado.
Como funciona o Banco Central
em outros países?
Como no Brasil, o Federal Reserve
(Banco Central norte-americano) é presidido por um nome indicado pelo chefe do
Executivo. A diferença é de que lá existe um mandato de quatro anos para o
cargo, que pode ser renovado. O presidente dos EUA não tem poder para depor
esse mandatário do Federal Reserve, e este deve se reportar ao Senado e à
Câmara.
Na Europa, desde 1988 a principal
atribuição do Banco Central Europeu (BCE) é administrar o euro. Para isso
trabalha em conjunto com os bancos centrais dos países que fazem parte da Zona
do Euro.
O Reino Unido faz parte da União
Europeia, mas a população votou contra a unificação econômica, então lá circula
a libra e não o euro. E é o governo que estabelece quais são as metas de seu
Banco Central. O BC britânico, contudo, tem autonomia para determinar qual
caminho utilizará para atingir as metas propostas pelo governo.
Vários outros bancos centrais ao
redor do mundo têm autonomia formal garantida em lei. Além do Fed e do BCE, os
bancos centrais do Japão, Chile e México mantêm certa autonomia em relação às
decisões dos governos de seus países.

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