EDUCAÇÃO: Diretora da Ubes no Maranhão fala sobre gestão democrática de Flávio Dino em artigo
Por Jaine Santos*
Muitas pessoas dizem que sonhos
se realizam, basta acreditar, porém, poucos realmente acreditam nessas
palavras. E os que acreditam enfrentam a descrença da maioria todos os dias.
Nesse caso me refiro aos estudantes.
Não é novidade a situação em que
atualmente se encontra a educação no estado do Maranhão. Os noticiários
estampam a precariedade das estruturas das escolas que chegam a ser de barro no
interior do estado. Muito menos tecnologia. 8 em cada 10 escolas no estado não
tem nenhum computador. É o último no ranking de infraestrutura escolar do
Brasil. Existem 20,7 habitantes analfabetos no estado. A escola maranhense mais
tradicional não chega nem a lista das 10 melhores classificadas no ENEM do
Maranhão. Temos disputado sequencialmente os últimos lugares em todos os
rankings relacionados à educação. Entretanto não há novidade nesses dados. O
que não é divulgado nas mídias são as perseguições ao movimento estudantil e
seus militantes por gestores autoritários.
Cintra, maior escola do Maranhão,
com seus 6.000 estudantes ocupa um local histórico, funciona em uma antiga
fábrica que foi adaptada e hoje é a Fundação Nice Lobão. Ela é protagonista dos
maiores casos desse enfrentamento. A eleição do seu grêmio estudantil teve a
presença da promotora de educação, pois simplesmente o seu diretor discordava.
Diretor esse que está à frente da escola há 20 anos interruptos e carrega na
bagagem vários processos sobre desvio de verba e assédio. Após eleito e
empossado o grêmio aderiu uma campanha contra o autoritarismo desse diretor.
Alguns de seus integrantes têm sua entrada proibida fora do horário de sua
aula. E por conta disso, o presidente Nélio Lobato aos seus 19 anos, foi 3
vezes processado. Justificativa? Ser militante do movimento estudantil.
Liceu Maranhense, escola mais
tradicional do estado, encontra-se no Centro da Cidade e também funciona em um
lugar histórico. A lei do grêmio livre não significa nada nesse território. O
diretor está à frente da escola há 12 anos e controla todas as decisões do
grêmio. Quando a União Brasileira dos Estudantes Secundaristas juntamente a um
grupo de estudantes da escola em um ato em sua porta, ocasionado pelo
aprisionamento dos estudantes em um dia de falta d’água, aderiram à pauta de
GESTÃO DEMOCRÁTICA – ELEIÇÕES DIRETAS PARA DIRETOR houve conversas paralelas
com os apoiadores e a entrada de estudantes de outras escolas foi proibida.
Esse mesmo grupo se transformou em uma chapa para concorrer às eleições do
grêmio e o diretor, em meio a uma ameaça, boicotou as eleições.
Benedito Leite, a escola modelo
que não modela nada (está caindo aos pedaços literalmente), encontra-se no
Centro da Cidade e também funciona em um lugar histórico. Em seus 114 anos
nunca houve um grêmio estudantil formado. E não foi por falta de interesse dos
estudantes. A última assembleia geral foi boicotada pelo diretor que liberou os
estudantes uma hora antes do horário marcado. Em meio ao trânsito intenso dos
estudantes uma assembleia foi improvisada na porta da escola. Porém duas
viaturas da polícia que estava tranquilamente rondando aquela área como
raramente fazem estacionaram no local, dispersando assim os estudantes. Desde
então a entrada de qualquer militante do movimento estudantil é proibida.
Joana Batista, uma escola nova e
bem pequena, situada em um bairro periférico. Não há grêmio estudantil e sua
gestora também não quer sua formação. Atualmente a entrada de estudantes sem
tênis preto ou branco e fora do horário é proibida e tem um pequeno sermão de
15 minutos para poder liberar o estudante. Se ele estiver sem o fardamento nem
uma palavra é proferida para ele e sim para seu responsável. Não, a escola não
tem ar condicionado. E sim, no Maranhão é muito quente. Na última tentativa de
formação do grêmio a líder que descordava da forma como os estudantes vinham
sendo tratados foi chamada na sala da direção.
Esses são apenas alguns exemplos
de gestores que não representam e não dialogam com os estudantes. Em vista
disso, no dia 21 de agosto 2.500 pessoas se reuniram para discutir a escola que
queremos. Com o tema “Me Organizando Posso Desorganizar” durante o 1º Encontro
de Grêmios de São Luís que parou as escolas da capital do estado para discutir
como a organização estudantil já conseguiu grandes vitórias e conseguirá muito
mais. Tratamos do nosso principal problema nessa organização, o desrespeito
constante ao estudante e sua organização. Foi então apresentado as nossas
reivindicações aos candidatos das eleições 2014. Entre elas estavam gestão
democrática, estruturação das escolas, contratação de professores, dentre
outras.
Muitos não acreditavam, alguns
riam de pensar que em territórios maranhenses isso iria acontecer. Acontece que
dia 1 de Janeiro foi assinado pelo Governador do Maranhão o projeto de lei
Gestão Democrática, que garante a todas as escolas estaduais eleições diretas
para diretor pela comunidade escolar. Outro que prevê a extinção de escolas de
taipa e do analfabetismo no estado. E
garantiu bolsa para material escolar a todos os estudantes.
O movimento estudantil do
Maranhão escreve uma nova história, em suas linhas há muitas lutas, passeatas e
coragem. Vitórias essas vão repercutir na vida de todos que estavam passando em
salas, nas ruas gritando “escola livre sem ditador, quero eleger meu diretor”.
Vai mudar a vida de cada estudante maranhense.
“Com as bandeiras nas ruas
ninguém pode nos calar.”
* Jaine é diretora regional da
UBES no Maranhão e presidenta do grêmio estudantil do Instituto Federal (IFMA),
campus Centro Histórico.
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